quarta-feira, 6 de junho de 2007

A Cagada é Universal


Trecho de um apanhado de contos que estou escrevendo sobre Manaus e sua gente que um dia pretendo juntar e transformar no monólogo "A Cagada é Universal".

"Preâmbulos e Nomes Trocados".

Clóvis não tinha estudos. Clóvis nasceu num inóspito lugar da cidade de Manaus e nunca vislumbrou futuro algum. Já havia sido de tudo: lixeiro, gari, pedreiro, pintor... Esta última profissão, aliás, com grande sucesso, pois fora aplaudido pelos moradores de seu bairro ao ter desenhado a última gostosa da novela das oito pelada com a perseguida à mostra em pleno muro em frente à praça, com grande riqueza de detalhes. Ficou conhecido como o cara que melhor já retratou uma vagina naquelas bandas; um artista, portanto!
Era um homem casado, tinha três filhos para sustentar – Vandernelson, Vandernilson e Vandernal. Nomes tão semelhantes que até então não sabia quem era quem. Chamava por Vandernelson, vinha Vandernilson, chamava por Vandernal, vinha Vandernelson... Acabou optando por chamar a prole de V1, V2 e V3. O problema era que os meninos ainda não sabiam contar: Chamava por V3, vinha V2, chamava por V1, vinha V3... Resolveu por chamar a mulher: “ - Ô, Marcineide, vamo no cartório trocar o nome dessas porra!”. E finalizou: “ - E quando a gente chegar lá troca o teu nome também porque, convém comigo, que Marcineide é um nome feio pra caralho!”.
A família foi ao cartório. Quarenta minutos de ônibus, num dia bom, do bairro alcantilado onde moravam, até o Centro. A esposa, sempre calma e bondosa, perdia tais adjetivos imediatamente no momento em que se encontrava dentro de um ônibus abarrotado, ainda por cima com a cria:
- Wandernilson, te aquieta!...
- Wandernal, não cospe pela janela, não tá vendo que o vento vai trazer o cuspe de volta pra tua cara?...
- Larga da perna dessa senhora, Wandernelson!
- Não bate na cabeça do teu pai, Wandernilson!!
- Agora não chora, Wandernal! Bem que te avisei que o cuspe ia voltar!
- Clóvis, esse cara tá me encochando, faz alguma coisa!
A porrada era inevitável, afinal, macho que é macho não deixa ninguém enconchar tua mulher, por menos bonita que a feia seja. O marido enciumado foi até o tratante e lavou a honra na porrada, porque macho é assim mesmo!
Chegaram ao Centro, mesmo diante de tantos intempéries. Tantos que foram obrigados a descer dois pontos antes da parada necessária. O alarido foi tão generalizado que o cobrador gentilmente os convidou a se retirar, após uma freada brusca do motorista:
- A mulher dos bacuris e do marido corno, pode descer! Bando de corno.
Sempre sobrava para Clóvis. O bolinador permaneceu no ônibus que partia, disparando um sorriso debochado aos recém-excluídos. O calor estava escaldante numa típica temperatura manauense, que rondava os quarenta graus Celsius, sem corrente de vento; sem nada. Pois assim é Manaus, graças à umidade relativa do ar. Tiveram que caminhar debaixo do sol quente. Os garotos, antes limpos e arrumados, já estavam imbuídos de suor e sujeira, afinal, não tinham como não se abalar diante do calor implacável da cidade. Não tem jeito, se você é pobre e vive em Manaus, você vai feder! Não há alfazema que resolva! Estas foram as máximas que Clóvis ouviu, certa vez, da mãe e que nunca mais esqueceu. Na ingenuidade da infância, chegou a pensar que era devido ao clima quente que sua mãe vivia pelada pela casa, ou até mesmo, pelas ruas. Mal sabia o garoto de que dona Ana Cleide tinha acessos de loucura e que se prostituía, muitas das vezes, para sustentá-los ou para manter o vício da cocaína. Isto até a viciada entregar o corpo a Jesus numa seita evangélica: Aleluia! Tornou-se cantora Gospel, chegou a ficar conhecida na comunidade, lançou um CD! Mas logo retomou a vida satírica após ter sido estuprada por um indolente pastor. Afinal, harmonia de pobre dura pouco. O pai, nunca conheceu. Só sabia que era marinheiro. Sonhava, quando criança: Filho de um americano, talvez! Até bom isto ter surgido agora, pois Clóvis sempre quis ser americano. Queria falar enrolado, queria namorar mulheres loiras, não gostava de índio, não gostava do calor, “nunca vou ver neve”, pensava. Mas seu mundo era exatamente o oposto. Ao invés de nome enrolado, seu nome era Clóvis. Ao invés de ser branco do olho azul, era moreno com traços caboclos e cabelos lisos, o que exclui a idéia de que seu pai poderia vir a ser um oriundo do primeiro mundo. Um boliviano, no máximo! Ao invés de ter uma loira em sua vida, casou com Marcineide, que de loira não tem nada, muito pelo contrário. Marcineide é uma negona forte aquinhoada de uma cabeleira pixaim e que, apesar da meiguice e bondade já relatadas antes, Clóvis tem a certeza absoluta de que se casou com um bucho! Mas não qualquer bucho, mas sim daquelas mulheres bem buchos que nem quando de colo eram agradáveis à vista. Não acreditava que poderia haver uma escrota tão escrota quanto a escrota de sua mulher, achava que as escrotas se tornavam escrotas, mas tem escrota que nasce escrota mesmo, como a escrota da Marcineide, que pelo menos o nome, vai trocar agora. Ah, vai! Vai matar dois coelhos com uma cajadada só!


Continua...

Um comentário:

Andre Borghi disse...

" Acabou optando por chamar a prole de V1, V2 e V3. O problema era que os meninos ainda não sabiam contar: Chamava por V3, vinha V2, chamava por V1, vinha V3... "


hhahahahahaahhahaahahhaha


Podia ser pior no ônibus , podiam ter que encarar o menino da bala de magarataia ou o crente com megafone que convida todos a um louvor ;-)


Ei , tu tem o texto completo ?
Me manda pow !