segunda-feira, 11 de junho de 2007

Parte 2


Muitos de vocês, leitores, devem estar se perguntando por que diabos Clóvis escolheu Marcineide como esposa, então. Pois digo: Pela mesma razão a qual muitas uniões ocorrem em bairros periféricos: gravidez inesperada. Nem sonhava com qualquer tipo de vínculo afetivo nem familiar com Marcineide, apenas a comia regularmente – às escondidas, claro! – após terem se conhecido numa festa de aniversário infantil de uma das crianças do bairro: o debilóide pequeno Charles – pronuncia-se Xarlis. O aniversário era típico. Com seus balões de um falso homem-aranha, que ao invés das tradicionais cores vermelho e azul de seu uniforme, usava verde e laranja; o pai, que aproveitava o ensejo para beber além da conta e virar a mão na cara da esposa no momento mais inapropriado possível; e, ao longe, claro, a figura caquética da avó vestindo viscose, a qual nunca ninguém dá a mínima. Sentada, sem falar com ninguém, nem podendo desfrutar do cardápio por tudo estar muito além do que ela jamais poderia ingerir. Por isto, eu, autor, tomo a liberdade de abrir um parêntese aqui para protestar contra os convites dessas senhoras a este tipo de festa. Ninguém tem assunto com elas, nem nada podem comer. E se degustarem qualquer daqueles quitutes salgados podem empacotar na mesma hora. Seria esse o motivo do convite, portanto? Que as velhas cometam o pecado da gula e morram de uma vez?? “Pronto, dessa nos livramos!”, agradeceria aos céus, um dos parentes. Deixem-nas em casa! Afirmo, sem dúvidas, que elas estariam melhor em sua rede, acompanhadas de suas novelas. Fecho parêntese.
E era neste cenário folclórico que lá estava Marcineide, sozinha, ao lado da bandeja de cajuzinhos pronta pra atacar os fatídicos docinhos antes da hora. Clóvis não teve dúvidas: no intuito de atenuar seus instintos sexuais de macho que tanto se vangloriava, foi lá e conseguiu comê-la na mesma noite, graças ao primeiro galanteio recebido na vida da moça. Passaram a trepar continuamente, até ouvir a notícia: “Tô cheia.”. A perplexidade tomou conta de Clóvis antes que ele pudesse dizer alguma coisa.
“Se fodeu!” - exclamou seu amigo Ney, às gargalhadas!
- Se fodeu! Se fodeu! Engravidou a bodó!
Bodó. Este era o apelido de Marcineide: Bodó. Mas teve que casar, os pais de ambos os obrigaram, apesar da idade já avançada dos dois, na época: Ele vinte e cinco, ela vinte e três ou vinte e quatro... Os pais, realmente, não tinham certeza do ano exato em que a bodó havia nascido, tinham tantos outros filhos. Doze, por baixo! A mãe havia sido uma excelente parideira. Talvez só não tenha embuchado mais pelo fato do marido ter criado desgosto pela mulher faz tempo. Só tinham certeza de que Marcineide fora a última da cria, logo, a caçula. Marcineide gostou da idéia e quis levar o casamento adiante, merecia ser desencalhada, havia perdido a sua pureza. Clóvis, no entanto, sentia-se humilhado. Pensava como seria quando transmitisse a notícia à tertúlia que estava prestes a casar, e quando os mesmos o perguntassem quem seria a felizarda, Clóvis ter que responder com toda a convicção que tratava-se de Marcineide. “Quem?”, os amigos se indagavam. Ney, escrachando: “ - A bodó!!!”.
Ney era o melhor amigo de Clóvis, e que futuramente, viria a se tornar sócio do amigo em sua empresa clandestina incrivelmente rentável. Um homem que de inteligente não tinha nada. Muito menos integridade; daqueles que não aceitam simplesmente movimentar-se com a embarcação, por essa razão tantas passagens pela polícia. Causa: brigas de rua. E de galo, também. Mas nos momentos de folga de sua cretinice, buscava rir diante do fracasso do outro; um crápula! Gostava de apreciar a derrota alheia, procurando sempre o combustível hilário de qualquer situação, como esta, embora de menor proporção. Ao exclamar o termo bodó infindáveis vezes, a gargalhada se tornava geral. Clóvis queria amocambar-se. Mas o casamento ocorreu. Juntaram seus paninhos de bunda, como era de costume dizer entre eles, numa cerimônia simples que só não foi tão familiar pelo motivo de Ney ter sido flagrado de calças arriadas fornicando uma das damas de honra da noiva, no confessionário: a Dalva Marli, com quem também fora obrigado a se casar nove meses depois. “Ao menos Dalva Marli é gostosa!”, dizia Ney aos quatro ventos.
Retornando ao casamento, Marcineide, vestindo marrom, a mando da mãe, que queria jogar na cara da filha a sua falta de responsabilidade para com o corpo, adentrou a nave central da igreja ao som de uma típica canção nortista dos Raízes Caboclas:
“... O cheiro da minha caboca tem cheiro de tudo. Tem cheiro de mato, de terra molhada...”.
Clóvis, suando em bicas dentro do terno emprestado do primo, ao ouvir a canção, somente concordava, principalmente quando ouviu “terra molhada”. E foi quando algo mexeu dentro dele. Ou melhor, dentro de suas roupas: Era o seu troço! Seu pau tomava vida ao lembrar-se do cheiro e do suor da bodó... Digo, de Marcineide, em contato com seu corpo. Lembrava-se de cada roçar com profundo carinho e tesão, algo até então inovador em sua mente, pois sempre a via como um objeto sexual, unicamente. “Deveria continuar pensando nela assim?”, se perguntava. Achava que não, ela estava tornando-se sua mulher e mãe de sua prole. Estava tornando-se tudo para ele, na verdade: esposa, companheira, mãe e amante. Deveria estar se preocupando com o rebento, com a família, em como sustentá-la. Começou a pensar no filho: “Será que é menina? Será que é menino? Será que é viado? Vai nascer saudável? Será ‘pertubado’ como Xarlis? Será que é meu? Puta merda, será que é meu?? Claro que sim, Marcineide não mentiria, além do quê, quem mais teria coragem de ter encarado uma mulher dessas? O filho é meu, o filho meu! Eu vou ter um filho!!”. E alegre ficou, sorrindo de orelha a orelha, parecia que tinha atochado um cabide na boca. Lembrou-se da imagem já antológica da gostosa da novela que desenhou no muro da praça e comparou os órgãos genitais, se surpreendendo: os buracos eram idênticos! Era pelo buraco de Marcineide que Clóvis esperou a vida inteira... Havia encontrado o buraco no qual poderia se refugiar quando quisesse, podendo acomodar todo seu amor, tesão, carinho e paixão ali! Tão perto! Sentiu-se felizardo. Era com ela que Clóvis gostaria de passar o resto de seus dias. Ou melhor dizendo, era com aquela perfeição de boceta que Clóvis queria estar próximo para sempre. E a amou. Naquele exato momento. Naquele segundo. Naquela hora. Dali em diante.
Naquela noite, treparam como loucos. Ney e Dalva Marli, nem pela noite esperaram.
Continua...

Nenhum comentário: